sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Neurociências

Natal: Da Cidade do Sol à Cidade do Cérebro


Por Safira e Paul Ammann, Natal, Brasil

Foto: Os autores na sala de exposição de artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

CONTEXTO

Safira Bezerra Ammann nasceu em Caicó (Rio Grande do Norte) e Paul Ammann em Davos. Ela é socióloga e assistente social, ele sociólogo e economista. Ela foi professora das Universidades de Brasília e do Rio Grande do Norte e pesquisadora da Universidade de Fribourg na Suíça. Foi colaboradora científica na Secretaria de Estado dos Refugiados Políticos de Fribourg. Escreveu seis livros, sendo dois em co-autoria com Paul Ammann.

Paul Ammann trabalhou nos Ministérios do Trabalho do Brasil e da Suíça, nas Secretarias de Saúde Pública de Berna e do Rio Grande do Norte, no CNPq e SENAI em Brasília. Publicou artigos no Brasil, na Suíça, Alemanha, Indonésia e nos Estados Unidos.
No último artigo descrevemos a cidade suíça de Davos como “Cidade da Ciência”. Esta vez apresentamos a “Cidade do Cérebro”, como vem sendo denominada Natal, a capital do Rio Grande do Norte, em pleno Nordeste brasileiro. A denominação deve-se ao fato de ter sido nela inaugurado em fevereiro 2007 o Instituto Internacional de Neurociências de Natal – IINN e terem sido realizados dois Simpósios Internacionais de Neurociências, com a participação de 25 cientistas palestrantes, dos quais três suíços (do Instituto Cérebro e Mente da Escola Politécnica Federal de Lausanne e do Centro de Pesquisa da Nestlé), além de 300 pesquisadores brasileiros e 400 ouvintes.

O paulista Miguel Nicolelis, fundador do IINN

O fundador do IINN é o professor Miguel Nicolelis, 45 anos, nascido em São Paulo, formado médico pela Universidade daquela cidade em 1984 e respeitado neurobiólogo da Universidade Duke dos Estados Unidos. Ofereceu importantes contribuições à neurociência básica e é considerado um dos maiores especialistas do mundo nas experiências com microeletrodos neurais implantados em macacos, visando o desenvolvimento de próteses ou membros robóticos para seres humanos, tais como braços e pernas artificiais comandados diretamente pelo cérebro, pensamento ou vontade.

Nicolelis é considerado o “sonhador-mor” do Instituto de Neurociências em Natal, contando com dois outros cientistas, colegas nos Estados Unidos, Cláudio Mello e Sidarta Ribeiro, o último atualmente diretor do IINN. Com eles, inicialmente trabalham 12 pesquisadores.

Quais as aplicações da neurociência em Natal?

Em primeiro lugar, o Instituto não pretende ser um centro que em pouco tempo se transforme em um elefante branco, uma torre de marfim que serve meramente para abrigar cientistas. O Instituto tem “como objetivo a gestão de recursos próprios e de terceiros para a implantação de projetos sociais e de pesquisa científica. Fundamenta-se na concepção de que a ciência de ponta pode, em países em desenvolvimento como o Brasil, servir como um poderoso agente de transformação social e econômica de comunidades localizadas em regiões carentes do território nacional” (veja link Revista Pesquisa Fapesp). Interdisciplinar e inserido na sociedade, o IINN oferecerá um projeto de educação científica infanto-juvenil para crianças da rede pública, o primeiro do Brasil, um centro de educação básica e um centro de saúde materno-infantil.

O Instituto, interligado com os principais centros de neurociência do mundo, trabalha com pesquisa de ponta e aplicação imediata dos resultados na população em todos os níveis de ensino. “O lema é o uso da ciência como um agente de transformação social”. Conforme Nicolelis “essas crianças vão navegar no meio da criatividade. Se um garoto revelar-se um gênio da astronomia, ele não vai fazer Física na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Será o nosso astrônomo” (veja link Carta Capital). Nicolelis tem certeza de que as crianças “serão cientistas com o que tiveram na mão. Aprenderão biologia a partir da análise do solo do bairro onde moram para que percebam quanta vida existe em um pedaço de terra. Com um telescópio olharão para o céu e passarão à matemática. O que falta é mostrar que a ciência é fruto da combinação de talento, paixão, perseverança e, sobretudo, interesse.” (veja Isto É 10/01/2007, no link IINN).

Por que foi escolhida Natal como Cidade do Cérebro?

Nicolelis tinha o sonho de um dia trazer de volta para o Brasil o que ele aprendeu lá fora, não somente a mais avançada neurociência, mas também a gestão cientifica, a busca da excelência e a consciência de que a ciência faz parte da equação da soberania de uma nação e de uma região, sobretudo quando ela é pobre. A idéia é aplicar a pesquisa da neurociência e seus resultados em regiões com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

De fato, todos os índices que compõem o Índice de Desenvolvimento Humano do Estado do Rio Grande do Norte são inferiores à média nacional, ocorrendo as maiores diferenças justamente no IDH-Educação e no IDH-Renda. No município de Macaíba, pertencente à Grande Natal e onde serão implantados os centro de educação científica infanto-juvenil e de saúde materno-infantil, o Índice de Desenvolvimento Humano é mais baixo ainda. A educação no Estado não é somente precária em termos quantitativos – reduzida taxa de escolarização da população em idade escolar – mas também em termos qualitativos, ou seja, grande parte dos alunos que termina a 4ª série do ensino fundamental continua sem saber ler e escrever.

Outra razão da escolha de Natal como sede do IINN é a idéia de Nicolelis de descentralizar a ciência e pesquisa no Brasil que se concentra tradicionalmente no eixo Brasilia – São Paulo – Rio e na Região Sul do país. A partir de Natal, que o cientista quer transformar em centro biotecnológico do país, poderá ser atendido o Nordeste e o Norte, regiões consideradas como celeiros para o descobrimento de novos talentos.

Conclusão

O Instituto de Neurociências terá uma influência altamente positiva na sociedade de Natal e de seus subúrbios. Despertando o interesse dos jovens na ciência e pesquisa, acolhendo e orientando-os nos centros educacionais, novas perspectivas lhes serão oferecidas. Essa oferta aparece em boa hora, porque o turismo de massa ligado ao turismo do sexo se avoluma cada vez mais em Natal, prejudicando não somente os jovens, mas toda a sociedade. Como a pesquisa científica aplicada à sociedade é relativamente nova em Natal e no Nordeste em geral, aos jovens pesquisadores, agora e no futuro, será oferecido um profícuo e amplo mercado de trabalho.

Links:

www.natalneuroscience.com: IINN- Instituto Internacional de Neurociências de Natal.

www.revistapesquisa.fapesp.br: 07/02/2007, “Conexões sem fronteiras”.

www.sbnec.org.br: Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento.

www.cartacapital.com.br/edicoes/2007//01/427/vendedor-de-sonhos. Entrevista com Miguel Nicolelis.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Livro que pode revelar lado coisas da política do RN

Jorge de Senna, um escritor

potiguar desconhecido (III)


 

Texto e pesquisa de Luiz Gonzaga Cortez.


 


 

Jorge Rodrigues de Senna, o ilustre escritor e bom contador de histórias e "causos", além de ficcionista e memorialista, não pára de escrever e prepara um novo livro para os próximos 12 meses, a ser lançado em Goiânia/GO ou em Parelhas e Natal. Não revela o título. Antes do lançamento, virá ao Rio Grande do Norte para receber uma homenagem da Câmara Municipal de Parelhas. Após muitos anos sem contactos com os políticos potiguares, ele retornará para ser homenageado pelos vereadores de sua terra natal. E por lembrar dos políticos, um dia Sr. Jorge poderá ser motivo de estudos de pesquisadores que se interessarem pelo coronelismo do RN. È um assunto pouco estudado pelos nossos intelectuais, talvez porque seja considerado tema espinhoso, difícil e perigoso. E vou dar uma sugestão para o "gancho" , isto é, que os pesquisadores sociais leiam o primeiro livro dele, "Depois do Expediente", publicado em 1994. O nossos "coronéis" não eram somente patriarcas, empreendedores e desbravadores dos sertões, mas, também, patrocinavam muitas patifarias, arruaças, crimes eleitorais e contra a vida. E nos períodos eleitorais, vixe Maria, acontecia de tudo, meu irmão.

Para você, caro leitor, ter uma idéia do que acontecia nas campanhas dos anos 40/50/60, no território potiguar, os majores e coronéis da baixa política mandavam e desmandavam na administração e na polícia. Vou transcrever um trecho sobre um fato ocorrido naqueles tempos, sem data e localidade, porque Jorge de Senna trata as pessoas por codinomes ou nomes parecidos com as verdadeiras identidades. Entendeu? Então, vamos lá. Na página 96 do citado livro, inicia a crônica "Nomeação por ato de bravura" , na qual ele conta parte da história de um biriteiro e arruaceiro que foi nomeado fiscal de tributos do Estado. Um patife que enganava até a mãe, nominado por "Benedito Guindaste", pois era uma lapa de homem.

---- "Todo mundo sabe que ele entrou pro serviço de fiscalização por via da proteção que lhe deu o deputado Talarico Bezerra. Esse era um que vivia às turras, disputando voto no tapa, com o deputado Leite Filho. Ali em Mofumbal, quem não era eleitor de um , votava no outro e era sempre incitado a odiar os adversários. Foi por isto que num dia de comício do deputado Leite Filho, Benedito Guindaste ajuntou-se com Quincas das Onças e se danaram a beber até à hora de começarem os discursos. Tinham falado só dois oradores. Ainda faltavam bem uns dez. Tinha gente da Macambira, Zangareia, Onça Rajada,Bosteiro... de tudo quanto era lugar povoado do município. Pracinha principal dura de gente. Foi nessa hora que chegaram os dois, mal conseguindo equilibrar-se nas pernas. Num carrinho de mão conduziam a jaula com o casal de felinos. Foi Quinca que tinha pegado as duas em armadilha na Serrado Ermo, pra vendê-las ao Circo Temperani, como sempre fazia.Mas a necessidade de fazer mal aos outros, os adversários políticos, era maior do que a necessidade de ganhar dinheiro. Abriram a jaula e gritaram ambos: "Olha as gatas, negrada!....

Não ficou viv'alma na pracinha do coreto. Só se via gente correndo pra todo lado. Os feídeos esturrando, desesperados. Gente trombando com gente. Onças passando no meio das pernas, tontas com a gritaria. Gente caindo e outros passando por cima. Foi um destempero dos diabos. Mas no fim, só escoriações leves. Ninguém machucado grave. Prejuízo mesmo, só levou o Hermano Espanhol. No outro dia, amanheceu só a ossada de um dos bezerros dele. Nunca mais Quinca viu suas onças. Nem ele nem ninguém. Mesmo assim permaneceu o apelido. Contavam que o deputado Bezerra precisou trocar a calça e a roupa de baixo, de tanto rir, quando lhe contaram o caso. Aí reuniu-se o Diretório Municipal do Partido. Foi lavrada a Ata, ingirgindo o aproveitamento dos dois no serviço público e assim foi feito. Governo era pra isto, pra prestigiar quem, por qualquer meio, avacalhasse a Oposição. A façanha foi considerada ato de bravura". Quincas e Benedito Guindaste foram nomeados e ficaram hospedados no Hotel do Deputado Talarico, onde os garçons receberam ordens de servir cervejas aos dois, à vontade, durante uma semana, enquanto aguardavam o Diário Oficial do Estado com as nomeações.

Acredito que o episódio ocorreu antes da famigerada Chacina de Cachoeira do Sapo, onde várias pessoas foram assassinadas por questões eleitorais, a mando de um deputado estadual que nunca cumpriu a pena integralmente porque foi defendido por um bom advogado criminalista já falecido, ligado ao grupo político que "administrava" o Estado do Rio Grande do Norte.


 

Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.