Objetiva divulgar memórias familiares, história da Ribeira, da cultura e dos costumes de Natal/RN,fotos,poesias,fragmentos do cotidiano escolar da matriarca Nati Cortez bem como de pessoas que desejarem publicar seus escritos.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Neurociências
Por Safira e Paul Ammann, Natal, Brasil
Foto: Os autores na sala de exposição de artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
CONTEXTO
Safira Bezerra Ammann nasceu em Caicó (Rio Grande do Norte) e Paul Ammann em Davos. Ela é socióloga e assistente social, ele sociólogo e economista. Ela foi professora das Universidades de Brasília e do Rio Grande do Norte e pesquisadora da Universidade de Fribourg na Suíça. Foi colaboradora científica na Secretaria de Estado dos Refugiados Políticos de Fribourg. Escreveu seis livros, sendo dois em co-autoria com Paul Ammann.
Paul Ammann trabalhou nos Ministérios do Trabalho do Brasil e da Suíça, nas Secretarias de Saúde Pública de Berna e do Rio Grande do Norte, no CNPq e SENAI em Brasília. Publicou artigos no Brasil, na Suíça, Alemanha, Indonésia e nos Estados Unidos.
No último artigo descrevemos a cidade suíça de Davos como “Cidade da Ciência”. Esta vez apresentamos a “Cidade do Cérebro”, como vem sendo denominada Natal, a capital do Rio Grande do Norte, em pleno Nordeste brasileiro. A denominação deve-se ao fato de ter sido nela inaugurado em fevereiro 2007 o Instituto Internacional de Neurociências de Natal – IINN e terem sido realizados dois Simpósios Internacionais de Neurociências, com a participação de 25 cientistas palestrantes, dos quais três suíços (do Instituto Cérebro e Mente da Escola Politécnica Federal de Lausanne e do Centro de Pesquisa da Nestlé), além de 300 pesquisadores brasileiros e 400 ouvintes.
O paulista Miguel Nicolelis, fundador do IINN
O fundador do IINN é o professor Miguel Nicolelis, 45 anos, nascido em São Paulo, formado médico pela Universidade daquela cidade em 1984 e respeitado neurobiólogo da Universidade Duke dos Estados Unidos. Ofereceu importantes contribuições à neurociência básica e é considerado um dos maiores especialistas do mundo nas experiências com microeletrodos neurais implantados em macacos, visando o desenvolvimento de próteses ou membros robóticos para seres humanos, tais como braços e pernas artificiais comandados diretamente pelo cérebro, pensamento ou vontade.
Nicolelis é considerado o “sonhador-mor” do Instituto de Neurociências em Natal, contando com dois outros cientistas, colegas nos Estados Unidos, Cláudio Mello e Sidarta Ribeiro, o último atualmente diretor do IINN. Com eles, inicialmente trabalham 12 pesquisadores.
Quais as aplicações da neurociência em Natal?
Em primeiro lugar, o Instituto não pretende ser um centro que em pouco tempo se transforme em um elefante branco, uma torre de marfim que serve meramente para abrigar cientistas. O Instituto tem “como objetivo a gestão de recursos próprios e de terceiros para a implantação de projetos sociais e de pesquisa científica. Fundamenta-se na concepção de que a ciência de ponta pode, em países em desenvolvimento como o Brasil, servir como um poderoso agente de transformação social e econômica de comunidades localizadas em regiões carentes do território nacional” (veja link Revista Pesquisa Fapesp). Interdisciplinar e inserido na sociedade, o IINN oferecerá um projeto de educação científica infanto-juvenil para crianças da rede pública, o primeiro do Brasil, um centro de educação básica e um centro de saúde materno-infantil.
O Instituto, interligado com os principais centros de neurociência do mundo, trabalha com pesquisa de ponta e aplicação imediata dos resultados na população em todos os níveis de ensino. “O lema é o uso da ciência como um agente de transformação social”. Conforme Nicolelis “essas crianças vão navegar no meio da criatividade. Se um garoto revelar-se um gênio da astronomia, ele não vai fazer Física na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Será o nosso astrônomo” (veja link Carta Capital). Nicolelis tem certeza de que as crianças “serão cientistas com o que tiveram na mão. Aprenderão biologia a partir da análise do solo do bairro onde moram para que percebam quanta vida existe em um pedaço de terra. Com um telescópio olharão para o céu e passarão à matemática. O que falta é mostrar que a ciência é fruto da combinação de talento, paixão, perseverança e, sobretudo, interesse.” (veja Isto É 10/01/2007, no link IINN).
Por que foi escolhida Natal como Cidade do Cérebro?
Nicolelis tinha o sonho de um dia trazer de volta para o Brasil o que ele aprendeu lá fora, não somente a mais avançada neurociência, mas também a gestão cientifica, a busca da excelência e a consciência de que a ciência faz parte da equação da soberania de uma nação e de uma região, sobretudo quando ela é pobre. A idéia é aplicar a pesquisa da neurociência e seus resultados em regiões com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.
De fato, todos os índices que compõem o Índice de Desenvolvimento Humano do Estado do Rio Grande do Norte são inferiores à média nacional, ocorrendo as maiores diferenças justamente no IDH-Educação e no IDH-Renda. No município de Macaíba, pertencente à Grande Natal e onde serão implantados os centro de educação científica infanto-juvenil e de saúde materno-infantil, o Índice de Desenvolvimento Humano é mais baixo ainda. A educação no Estado não é somente precária em termos quantitativos – reduzida taxa de escolarização da população em idade escolar – mas também em termos qualitativos, ou seja, grande parte dos alunos que termina a 4ª série do ensino fundamental continua sem saber ler e escrever.
Outra razão da escolha de Natal como sede do IINN é a idéia de Nicolelis de descentralizar a ciência e pesquisa no Brasil que se concentra tradicionalmente no eixo Brasilia – São Paulo – Rio e na Região Sul do país. A partir de Natal, que o cientista quer transformar em centro biotecnológico do país, poderá ser atendido o Nordeste e o Norte, regiões consideradas como celeiros para o descobrimento de novos talentos.
Conclusão
O Instituto de Neurociências terá uma influência altamente positiva na sociedade de Natal e de seus subúrbios. Despertando o interesse dos jovens na ciência e pesquisa, acolhendo e orientando-os nos centros educacionais, novas perspectivas lhes serão oferecidas. Essa oferta aparece em boa hora, porque o turismo de massa ligado ao turismo do sexo se avoluma cada vez mais em Natal, prejudicando não somente os jovens, mas toda a sociedade. Como a pesquisa científica aplicada à sociedade é relativamente nova em Natal e no Nordeste em geral, aos jovens pesquisadores, agora e no futuro, será oferecido um profícuo e amplo mercado de trabalho.
Links:
www.natalneuroscience.com: IINN- Instituto Internacional de Neurociências de Natal.
www.revistapesquisa.fapesp.br: 07/02/2007, “Conexões sem fronteiras”.
www.sbnec.org.br: Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento.
www.cartacapital.com.br/edicoes/2007//01/427/vendedor-de-sonhos. Entrevista com Miguel Nicolelis.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Livro que pode revelar lado coisas da política do RN
Jorge de Senna, um escritor
potiguar desconhecido (III)
Texto e pesquisa de Luiz Gonzaga Cortez.
Jorge Rodrigues de Senna, o ilustre escritor e bom contador de histórias e "causos", além de ficcionista e memorialista, não pára de escrever e prepara um novo livro para os próximos 12 meses, a ser lançado em Goiânia/GO ou em Parelhas e Natal. Não revela o título. Antes do lançamento, virá ao Rio Grande do Norte para receber uma homenagem da Câmara Municipal de Parelhas. Após muitos anos sem contactos com os políticos potiguares, ele retornará para ser homenageado pelos vereadores de sua terra natal. E por lembrar dos políticos, um dia Sr. Jorge poderá ser motivo de estudos de pesquisadores que se interessarem pelo coronelismo do RN. È um assunto pouco estudado pelos nossos intelectuais, talvez porque seja considerado tema espinhoso, difícil e perigoso. E vou dar uma sugestão para o "gancho" , isto é, que os pesquisadores sociais leiam o primeiro livro dele, "Depois do Expediente", publicado em 1994. O nossos "coronéis" não eram somente patriarcas, empreendedores e desbravadores dos sertões, mas, também, patrocinavam muitas patifarias, arruaças, crimes eleitorais e contra a vida. E nos períodos eleitorais, vixe Maria, acontecia de tudo, meu irmão.
Para você, caro leitor, ter uma idéia do que acontecia nas campanhas dos anos 40/50/60, no território potiguar, os majores e coronéis da baixa política mandavam e desmandavam na administração e na polícia. Vou transcrever um trecho sobre um fato ocorrido naqueles tempos, sem data e localidade, porque Jorge de Senna trata as pessoas por codinomes ou nomes parecidos com as verdadeiras identidades. Entendeu? Então, vamos lá. Na página 96 do citado livro, inicia a crônica "Nomeação por ato de bravura" , na qual ele conta parte da história de um biriteiro e arruaceiro que foi nomeado fiscal de tributos do Estado. Um patife que enganava até a mãe, nominado por "Benedito Guindaste", pois era uma lapa de homem.
---- "Todo mundo sabe que ele entrou pro serviço de fiscalização por via da proteção que lhe deu o deputado Talarico Bezerra. Esse era um que vivia às turras, disputando voto no tapa, com o deputado Leite Filho. Ali em Mofumbal, quem não era eleitor de um , votava no outro e era sempre incitado a odiar os adversários. Foi por isto que num dia de comício do deputado Leite Filho, Benedito Guindaste ajuntou-se com Quincas das Onças e se danaram a beber até à hora de começarem os discursos. Tinham falado só dois oradores. Ainda faltavam bem uns dez. Tinha gente da Macambira, Zangareia, Onça Rajada,Bosteiro... de tudo quanto era lugar povoado do município. Pracinha principal dura de gente. Foi nessa hora que chegaram os dois, mal conseguindo equilibrar-se nas pernas. Num carrinho de mão conduziam a jaula com o casal de felinos. Foi Quinca que tinha pegado as duas em armadilha na Serrado Ermo, pra vendê-las ao Circo Temperani, como sempre fazia.Mas a necessidade de fazer mal aos outros, os adversários políticos, era maior do que a necessidade de ganhar dinheiro. Abriram a jaula e gritaram ambos: "Olha as gatas, negrada!....
Não ficou viv'alma na pracinha do coreto. Só se via gente correndo pra todo lado. Os feídeos esturrando, desesperados. Gente trombando com gente. Onças passando no meio das pernas, tontas com a gritaria. Gente caindo e outros passando por cima. Foi um destempero dos diabos. Mas no fim, só escoriações leves. Ninguém machucado grave. Prejuízo mesmo, só levou o Hermano Espanhol. No outro dia, amanheceu só a ossada de um dos bezerros dele. Nunca mais Quinca viu suas onças. Nem ele nem ninguém. Mesmo assim permaneceu o apelido. Contavam que o deputado Bezerra precisou trocar a calça e a roupa de baixo, de tanto rir, quando lhe contaram o caso. Aí reuniu-se o Diretório Municipal do Partido. Foi lavrada a Ata, ingirgindo o aproveitamento dos dois no serviço público e assim foi feito. Governo era pra isto, pra prestigiar quem, por qualquer meio, avacalhasse a Oposição. A façanha foi considerada ato de bravura". Quincas e Benedito Guindaste foram nomeados e ficaram hospedados no Hotel do Deputado Talarico, onde os garçons receberam ordens de servir cervejas aos dois, à vontade, durante uma semana, enquanto aguardavam o Diário Oficial do Estado com as nomeações.
Acredito que o episódio ocorreu antes da famigerada Chacina de Cachoeira do Sapo, onde várias pessoas foram assassinadas por questões eleitorais, a mando de um deputado estadual que nunca cumpriu a pena integralmente porque foi defendido por um bom advogado criminalista já falecido, ligado ao grupo político que "administrava" o Estado do Rio Grande do Norte.
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Parelhense brilha na literatura goiana .
Jorge de Senna, um escritor
Potiguar desconhecido. (2)
Luiz Gonzaga Cortez. *
Não é somente Jorge Rodrigues de Senna que é esquecido pelos autores de antologias de escritores e contistas norte-rio-grandenses. Existem inúmeros poetas omitidos das listas literárias, como são os casos de Estefânia de Azevedo Mangabeira de Barros, do século passado, nascida em Macaíba, Geraldo do Norte (WWW.opoetamatuto.com.br) e Tertuliano Pinheiro, estes de Parelhas/RN.
O parelhense que brilha, depois que publicou "Depois do Expediente", em 1994, lançou o seu segundo livros de contos e memórias, "Frutos da Insônia" (104 páginas), considerado pelos críticos goianos como uma obra com viés sociológico, "de olhos vivos no real, servindo ao ficcionista que desta feita, caminha pelo terreno da crônica confidente". Jorge de Senna, mais uma vez, é elogiado por Brasigóis Felício, no prefácio de "Frutos da Insônia", onde ele escreve: "Não hesito em dizer que os leitores não gastarão em vão o tempo que dedicarem à leitura desses FRUTOS DA INSÔNIA. São frutos da terra, colhidos pela sabedoria humana, espírito de observação, e no senso de humor deste potiguar que escolheu Goiás para viver, trabalhar, e criar sua família. Radicado no rico torrão goiano (e atualmente devastado pela "sojeira pura" da monocultura agrotóxica intensiva), Jorge de Senna não perde o contato com suas raízes". Brasigóis considera que Jorge de Senna cavouca as solidões do passado, mergulhando, com seu talento de cronista e historiador nos acontecimentos mais marcantes da política potiguar, com "certeiras lancetadas no carnegão da política da província, com seus coronelismos, e outros ismos impronunciáveis, em face de uma falsa modernidade".
Realmente, segundo informações colhidas, Jorge de Senna não perde suas ligações com o Rio Grande do Norte, visitando Parelhas, onde nasceu no povoado Juazeiro, em 27 de abril de 1922, e Natal. Aqui, ele não perde uma oportunidade de "baixar" no antigo "Grande Ponto", na rua Princesa Isabel, para matar as saudades, pois, ali pertinho, morou na casa de nº 227 da rua General Osório, onde existiu uma "república" de estudantes nos anos quarenta. No pensionato, conviveu com Alonso Bezerra de Albuquerque e José Orontes Pires Galvão (falecidos), além de Lauro Pires Galvão, Neto Queiroz, Noé Assunção, Bianor Trigueiro Costa, dr. Chiquinho Vasconcelos Galvão, Fernando Umbelino, de Santa Cruz, irmão de Pindoba e João Umbelino.
"Ainda não havia a Rádio Difusora de Natal. Ou seria a Rádio Educativa? Confesso a minha dúvida. O serviço de auto-falantes de Luiz Romão estava no auge. Foi nessa época que o cantor Silvio Caldas fez uma "Noite de Seresta" naquela casa de espetáculos. Quem duvidar, procure os anúncios em "A República" dos primeiros meses de 1940 e verá que a cachola deste macróbio ainda funciona. Lembro-me de que antes de Sílvio entrar no palco, um locutor de fora, chamado Bulhões, fez longa leitura, apresentando "o artista de voz cristalina como água que jorra de uma ânfora", para deleite da imensa platéia que lotava aquela então requintada casa, freqüentada pela nata social da época. O leitor já deve estar perguntando:
---E por que o velhote não diz o que o teria levado a achar que já era homem, naquele tempo? Não se aperreie ,não,meu bichim, eu lhe digo: foi naquela noite gloriosa que eu me sentei, pela primeira vez, com uma namorada, para assistir a uma diversão, como faziam os outros rapazes mais velhos e melhormente situados na vida. Além de ter sido a primeira vez que abracei uma namorada, outro acontecimento, ruim a danar, ficou-me gravado na memória: dirigi-me ao Rex, naquela noite, ignorando o preço de casa entrada. Lá chegando, na bilheteria, fui informado de que custava a bagatela de cinco mil reis, cada uma. Comprei as duas por dez, é claro, todo o meu capital e assisti Silvio Caldas, com o braço sobre os ombros dela e uma dor, não sei onde, causada pela certeza de que voltaria a pés, para a Ribeira, vez que não sobrara um único tostão. Terminada a apresentação, aleguei dor de cabeça, enxaqueca, despedi-me às pressas, no ponto do bonde e parti rumo à Praça Augusto Severo para onde tínhamos mudado, meses antes. Enxuguei o suor e dormi feliz. Ali, ocupava, com Lalu Galvão, um quartos dos fundos, no terceiro andar, quarto este situado ao lado de outro, um pouco mais confortável, onde residia o já então maduro solteirão Luiz Maria Alves".
Liso, Jorge de Sena, na semana de carnaval de 1941, viajou para Recife, onde embarcou no navio "Itaquatiá" para o Rio de Janeiro, iniciando a sua saga em busca de trabalho e melhores dias. E diga aí, caro leitor, com quem Senna viajou para Recife? Luiz Maria Alves, por derradeiro.
"Frutos da Insônia" tem muitas crônicas com os "causos" vividos pelo escritor parelhense, a vida social e política de Natal, Parelhas e Goiânia-GO. O livro foi editado pela Editora AB, rua 15, nº 252, Qd. 34, Lt. 34, Setor Central, Goiânia-GO . Tel. (062) 225.2010 e fax 229.4109.
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.
domingo, 4 de julho de 2010
Parelhense brilha na cultura goiana
Jorge de Senna: um
Escritor esquecido no RN (1)
Luiz Gonzaga Cortez.
Foi através de Zequinha Marcolino, bancário aposentado, companheiro de caminhadas, que tomei conhecimento de Jorge Rodrigues de Senna, potiguar de Parelhas, um dos nossos escritores que não estão enfocados nas antologias da literatura do Rio Grande do Norte. Pois é, o octogenário Jorge R. de Senna, um misto de contador aposentado, escritor e jornalista, autor de cinco livros de contos, crônicas e artigos, é integrante da Academia de Letras Goiás, Estado onde reside há mais de 50 anos, mas sempre vem à sua terra natal para participar dos festejos religiosos do Padroeiro da cidade de Parelhas, São Sebastião.
Jorge de Senna foi descoberto e incentivado por um dos grandes escritores goianos, Brasigóis Felício, autor do prefácio do seu primeiro livro, "Depois do Expediente" (1994), através do qual, em 2009, me embeveci com os seus contos e relatos da vida cotidiana de Goiás e da política coronelista potiguar nos anos 40/50 do século passado, além dos "causos", dos fatos tragicômicos e dramáticos. Há relatos verídicos que servirão de subsídios aos pesquisadores acadêmicos da área de ciências sociais, apesar dos seus personagens terem suas identidades referidas por pseudônimos,como os envolvidos nas tramas e crimes da baixa política potiguar da antiga UDN e PSD.
Na sua primeira incursão literária, Jorge de Senna homenageia seus pais, esposa, Marlaine, e filhos, através de textos que asseguram "ser um arguto observador da alma humana, no que tem, o bípede pensante, de ridículo e imponente, divino e demoníaco". E prossegue Brasigóis: "Li este livro de um fôlego só, reforçando minha convicção: a que, para se fazer literatura, há que se ter, como matéria prima primordial, boa linguagem, capacidade narrativa, (em que se equilibram, artisticamente, a opulência e a síntese)—além, é claro, do senso de humor, quando se tratar de cenas pícaras, ou anedóticas, e visão do trágico, quando o drama ensombrecer de medo e de angústia, as ações humanas. E isso este Autor potiguar tem, senão se sobra, mas, ao menos, o suficiente para prender o leitor. Que mais se pode exigir, de alguém que se dedique ao ofício de escrever? Não há, nas estórias de Jorge de Senna, as filigranas e os laboratórios herméticos, em que nadam, de braçada, certas barulhentas e estéreis vanguardas. Seus recursos narrativos são os tradicionais, sendo suas estórias estruturadas pelo velho e bom começo, meio e fim, sem que seja, por isso, previsíveis e insossas. Bem ao contrário, seus contos têm tônus, tensão dramática e riqueza conteudística, como é exemplo a peça "O Boca de Praga", onde se lê a pérfida ou inocente ironia que viceja nas repartições públicas transformou um Malaquias Souza Vale em Malaquias Sem Valor, só pelo fato do alcunhado, para economizar tempo ou tinta, grafar seu nome como "Malaquias S/V"....". Há figuras denominadas Zidorão, Cabo Jacinto, Brejuí, Zé Mocó, Zitinha, Ana Medalha,Carival, Orontes, Pedro Bonzo, Abílio Pé de Cana, Aninha Sem Tripa, Cicero Suruba, Talarico Bezerra, Leite Filho, etc., mas vou parar por aqui porque isso é outra história.
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.
sábado, 12 de junho de 2010
Em 2010, ainda se comenta sobre o
Dicionário do Folclore Brasileiro,
uma obra de Cascudo mutilada .
Luiz Gonzaga Cortez
O jornalista e poeta Celso Dantas da Silveira partiu sem receber uma satisfação da editora que publicou a última edição do Dicionário do Folclore Brasileiro, de autoria do potiguar Luís da Câmara Cascudo, com a exclusão do verbete criminoso, colaboração do intelectual assuense. O Dicionário foi outro mutirão que Cascudo fez, que redundou em inúmeras transcrições de verbetes elaborados por pesquisadores e folcloristas de todo o Brasil (parte deles relacionados na página XVIII da segunda edição, de 1962, feita pelo Ministério da Educação e Cultura e o Instituto Nacional do Livro). Celso me procurou em 2002, num dos intervalos de um Circuito Cultural Banco do Brasil, em frente ao estádio Machadão, para sugerir que eu fizesse uma reportagem sobre as capações feitas na grande obra de Cascudo, isto é, a retiradas de várias verbetes publicadas em edições anteriores, sem a autorização do autor, tais como criminoso e abusão. "Não se faz uma coisa dessa, é um crime", disse-me. Em seguida, pediu para ir na sua casa para exibir as provas. E mostrou-as, além da carta eletrônica que mandou para a Editora Global, em 2002.
No imeio que Celso da Silveira mandou para global@dialdata.com.br , ele registra que constatou que na edição "Revista, atualizada e ilustrada" houve "inaceitáveis mutilações parciais e até supressões de alguns verbetes e adulterações nas chamadas remissivas que se encontram na obra básica do mestre Luís da Câmara Cascudo, em termos comparativos com a segunda edição de 1962, do INL".
"Durante 39 anos, ao longo de seis ou sete edições seguidas desse livro, foi mantido o verbete CRIMINOSO, jogo juvenil praticado nos anos 40 na cidade do Assu (RN) e Itabaiana (PB), agora suprimido pela professora Laura Della Mônica, falecida recentemente, conforme me foi comunicado pela comissão Nacional de Folclore, cuja presidência é ocupada pelo eminente folclorista pernambucano Roberto Benjamin. Mesmo respeitando a memória, seu conhecimento e erudição e reconhecendo o respeitável cabedal da doutora Laura, em etnografia e folclore, não posso deixar sem registro as lamentáveis omissões encontradas em seu trabalho. O próprio Cascudo, em texto explicativo introdutório ao DFB, diz: "ninguém estuda pré-história, história natural, geologia pelos elementos componentes, REDUZINDO, o material examinado..." e finaliza afirmando que "TODAS as coisas aqui registradas participam indissoluvelmente da existência normal do homem brasileiro". Numa rápida análise da edição Global, pode-se verificar que inúmeros verbetes remissivos foram modificados, de certa forma descaracterizando a obra original. Cito apenas alguns exemplos. Na letra C o verbete crendice pede uma chamada (edição do INL) para abusão. Na edição Global crendice mudou para superstições e suprimiu abusão, na letra A. Abusão, na edição do INL, está abonada pelo livro V, título 3, parágrafo 3 DAS "Ordenações Filipinas".
Acreditava Celso da Silveira que o trabalho da professora Laura Della Mônica foi feito "às pressas, sem revisão da autora antes da publicação" e não deu aos estudiosos as razões sobre a supressão dos verbetes da edição original de Cascudo. "Em folclore nunca se deve suprimir registros de manifestações de costumes e sim acrescer com achegas os verbetes que surgem geograficamente na cultura popular. Quanto mais abonações, mais os fatos folclóricos ampliam a importância do fenômeno lingüístico. Nunca é prudente suprimir, quanto mais quando se trata da obra de um sábio genial do quilate de Luis da Câmara Cascudo", lembrou Celso, que integrava a Comissão Estadual de Folclore do RN. Celso da Silveira fez várias gestões para receber um esclarecimento, inclusive ao seu amigo Roberto Benjamim, em 22 de abril de 2002, a quem escreveu pedindo ajuda para a restauração do verbete criminoso, que desapareceu do Dicionário do Folclore Brasileiro depois de quase 40 anos. Cascudo aproveitou o verbete após ler um artigo de Celso da Silveira no jornal A República, em 1962. A propósito, desconheço qualquer iniciativa dos herdeiros da obra de Cascudo para restaurar as supressões da última edição do DFB, mas sei que são do conhecimento deles.
domingo, 30 de maio de 2010
Nati Cortez e Lilia Galvão
Cometa, um poema de Didi Câmara
Luiz Gonzaga Cortez *
Pegando carona nas crônicas publicadas na imprensa natalense, andei procurando nos meus papéis velhos, alguma coisa sobre a poetisa Didi Câmara. Encontrei pouco, mas continuo procurando as cartas que ela teria enviado para a minha mãe, Maria Natividade Cortez Gomes, sua amiga de infância, em Natal. Irmãos mais velhos me informaram que elas se corresponderam muito há 30/40 anos atrás. Didi Camara no Rio de Janeiro e Nati Cortez, como era mais conhecida, na Rua Felipe Camarão, Cidade Alta, em Natal. Quando menino, eu ouvia falar sobre duas amigas de minha mãe: Lilia Galvão e Didi Câmara. Dona Lilia eu conheci, morou em frente à nossa casa. Eu não me lembro de dona Didi Câmara, mas há quem afirme que ela visitou mamãe, aqui, na província potengina. Já achei várias cartas remetidas para ela (Nati), mas não achei as de Didi Câmara. Entretanto, encontrei uma edição incompleta da revista JURITI, editada por Aluizio Macedônio Lemos, chefe integralista de Ceará-Mirim/RN, com um poema de Didi Câmara. A revista não tem páginas numeradas nem a data da edição, mas, presumo, que seja de novembro ou dezembro de 1938, pois traz uma notícia sobre as comemorações do 1º aniversário do golpe de estado que implantou a ditadura do Estado Novo em 10 de novembro de 1937.
Chama-se "COMETA" o poema de Didi Câmara, oferecido ao Padre Luiz Gonzaga do Monte. Transcrevo, conforme o original publicado, o poema escrito décadas antes do nascimento do compositor e cantor Raul Seixas e do movimento dos ufologistas.
"Nasci numa longínqua nebulosa,
Há milhares de séculos passados,
Em pleno céo aberto e infinito.
Sou filho vagabundo dos espaços
E irmão das estrelas.
Percorro lesto distancias inauditas,
Dentro do caos profundo deixo rastros
De luz e uranolitos.
Se o que vi podesse, eu vos diria,
Dentro de minha vida luminosa,
Desde que vim da erma nebulosa,
Que já nem sei onde está...
E que foi o meu berço colossal,
Feito de ouro, verde e cor de rosa:
Em volteios gracis, qual fulgurante
Aza ciclópica de gigantesca ave.
Pelos espaços vi alviçareiros mundos,
Que giram sobre, e pelos céos profundos,
Da estrada eterna a interminável senda:
Globos acesos e volteando aos pares
Quais falenas de prata, aos milhares,
Numa dansa fantástica de luz
Toquei o solo rubro de estrelas,
Onde colhi encantos de mil cores,
A corôar minha cabeça e onde puz
Mais formosos matises, como flores.
Vi delírios de fogo, altas chamas,
Tempestades astrais, igneas tragedias,
Onde desapareceram de repente,
Os mais lindos sois.
Contemplei as batalhas siderais,
Onde cada soldado é uma estrela,
Que disputa um sistema em formação...
E seguirei sempre aventureiro de luz,
Pelos espaços infindos, eternamente abertos
Pelos céos de safira sempre azuis...
Até que um dia nessa marchar exul,
Possa tomar-me um sol no seu bojo de chama
E sepultar-me a fluida cabeleira,
Numa formosa e rubra sepultura,
Que ao choque de meu corpo ainda mais se inflar
Em torrentes de fogo pela altura!".
Nota: As expressões " lesto", "exul" e "gracil" não são erros de revisão. Estão registradas no "Aurélio" há décadas, informa Nei Leandro de Castro. Eu desconhecia, mas lesto significa rápido, ligeiro, ágil grácil é o mesmo que delicado, delgado, fino, sutil. Exul, o mesmo que exule, é exilado, desterrado. Creio que o final do bonito poema seja "Em torrentes de fogo pelas alturas!". Franklin Jorge escreveu que esteve no Rio de Janeiro, em 1970, num dia de jogo da seleção brasileira e encontrou Didi Câmara com várias amigas e que não deu importância ao visitante, mas lembra-se de que falou sobre Natal e Nati Cortez, tendo dona Didi comentado que isso é coisa muita antiga, que já passou, etc. Tudo bem, está certo Franklin quando diz que ela não o recebeu bem. Já a minha irmã, Cecília, que reside no Rio de Janeiro desde 1974, disse-me que naquele ano, visitou Didi Câmara com mamãe e que ela recebeu muito bem, tomou chá com a gente, que riu muito quando conversaram sobre Natal da infância delas. "Me pareceu uma mulher muito simpática, risonha e era amiga de mamãe. Só a vi uma vez, apesar de morar bem pertinho, na Tijuca. Na ocasião , ela estava com uma filha e uma neta,que devem morar aqui ainda, mas não me lembro do endereço dela", disse a engenheira Cecília Cortez Gomes.
Luiz Gonzaga Cortez Gomes, jornalista e pesquisador.
Texto redigido em 17.04.2010.
